Projeto mapeia potencial para integração produtiva na América do Sul

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Cada vez mais se fala na fragmentação dos processos produtivos entre países, as chamadas cadeias globais de valor, e como algumas economias despontam nessa dinâmica. De acordo com Renato Baumann, técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos Setoriais e Inovação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Diset/Ipea), é notável a velocidade com que a China se inseriu nessas cadeias. Por outro lado, é preocupante o modo marginal como as economias sul-americanas têm participado do processo.

Com a proposta de mudar o cenário regional, o Ipea, em conjunto com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), deram início aos trabalhos para mapear setores da economia brasileira e dos países vizinhos e evidenciar o potencial de “fatiamento” do processo produtivo, que é inerente à tendência das cadeias globais que, de forma resumida, consiste na organização dos processos de produção, em diversos países, a fim de obter vantagens pelas diferenças em custos, tecnologia, logística, qualificação de mão de obra etc.

A metodologia considerada pelos organismos levou em conta o estabelecimento de uma matriz regional de insumo-produto (MIP) que possibilitasse apontar setores com maior potencial de integração produtiva. Por meio da matriz, é possível conhecer o quanto uma atividade depende de outra no que diz respeito a insumos e produtos presentes nas etapas de produção.

Para o projeto, foram selecionados dez países da América do Sul, num mercado formado por 400 milhões de pessoas. O estudo contempla 40 setores da economia, sendo 35 de bens e 5 de serviços. A construção dos dados – hoje de forma preliminar, pois devem passar por uma revisão final e serem submetidos aos diversos países até a publicação que será oficial – leva em conta as estatísticas de oito países (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai 
e Venezuela), sendo que Paraguai e Equador serão os próximos a serem 
incorporados.

MIP
De acordo com Sebastian Castresana, da divisão de Comércio Internacional da Cepal, o estudo das cadeias de valor ganhou destaque nos últimos anos tanto pelo crescimento do comércio mundial como pela terceirização das atividades. Para conhecer o funcionamento dessas cadeias, a MIP é tida como a ferramenta mais importante, pois permite ter uma visão das relações econômicas entre setores industriais.

Baumann explica que a MIP é um instrumento estatístico e que é a primeira vez que se faz uma matriz no nível regional da América Latina. “Há duas regiões em que temos isso: Leste Asiático e Europa Ocidental. Esse tipo de ferramenta é muito importante para identificar o potencial de complementaridade produtiva nos setores que podemos imaginar haver complementação entre a economia A, B ou C e o que faltaria”, relatou. Para o especialista, o recurso permite cruzar dados entre países da América do Sul e deles com os parceiros selecionados em outras regiões.

“São quatro ou cinco parceiros que identificamos. É um primeiro passo para poder planejar uma estratégia, uma política de aproximação e, a meu ver, também de consolidação da integração regional”, avalia Baumann.

A partir dos dados extraídos da matriz, será possível traçar estratégias para integrar a produção entre os países e obter vantagens. Por exemplo, se um setor X da Colômbia produz para exportar para os Estados Unidos e usa insumos vindos da China, mas o Brasil produz aquele mesmo item, então, por que não comprar do Brasil. Segundo Baumann, a grande questão será ir a campo e encontrar as oportunidades de integrar a produção.

Política de governo
A visualização dos bens de cada uma das categorias trabalhadas na matriz, no nível das estatísticas agregadas, é feita a partir dos seis dígitos de classificação de produto. A matriz dará uma indicação de que algo pode ser feito em determinado setor, mas o trabalho de aproximação deve ocorrer com entidades, sindicatos de produtores, agências de governo, a fim de transformar uma possibilidade de integração em recomendação de medida de política específica, com a visão de que é possível obter maior vantagem comprando de países da região que tenham a produção do insumo que a empresa precisa. “Essa é a contribuição maior que pode ser tirada desse tipo de instrumento”, pontua Baumann ao lançar que a “grande coisa que a matriz diz é: não perca tempo com setores 1, 2, 3, mas foque em 15, 18 e 37, que têm a indicação de que algo pode ser feito. Ela dá um norte de como as coisas poderiam acontecer”.

O tema integração produtiva na América do Sul foi debatido durante seminário promovido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Para o diretor titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da entidade, Thomaz Zanotto, todos os caminhos, no cenário atual, indicam o comércio exterior e a integração internacional como pilares da recuperação da economia.

Na visão do diretor titular adjunto do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, 
Mario Marconini, a questão da integração produtiva além de ser oportuna começa a ganhar ares de urgência. “É um dos temas em que o Brasil está atrasado. É como se fosse ultrapassado pelos seus concorrentes”, expressou. De acordo com o especialista, os acordos de livre- comércio permitem evoluir naturalmente no assunto, mas como o Brasil não avança nesse campo acaba dificultando também o processo de integração.

Cultura
Marconini também chama atenção para o fato de que os processos de integração produtiva deveriam partir da iniciativa das empresas, mas que isso não ocorre pela cultura de achar que para tudo existe a necessidade de algo assinado pelo governo.

Para o professor da EPGE/FGV e coordenador técnico do projeto 
“Cadeias Globais de Valor e Complementariedade Produtiva na América do Sul”, Renato Flôres, é importante entender algumas terminologias adotadas no estudo, como a questão da dependência para trás (backward dependence), pela qual é possível saber o quanto um setor busca outros da matriz, ou seja, como o setor líder puxa os demais.

Já o termo dependência para frente (forward dependence) mostra os setores capazes de suprir muitos outros. Essa característica é presente em economias mais desenvolvidas, com grande participação de setores de serviços. Por exemplo, o setor 37, que é de telecomunicações, aparece no Brasil, mas não está presente nos demais países, daí ser possível destacar o País como uma economia um pouco mais sofisticada.

“Somos pouco integrados e há muito a fazer, principalmente em termos de serviços. O Brasil tem certo poder de puxar outros países, mas eles não nos puxam e acabamos nos isolando. Nossa participação é modesta e isso pode ser ainda mais agravado”, relata Flôres.

Concorrência
Segundo Baumann, a América Latina tem experimentado constante perda de mercado pela concorrência de países em que boa parte da produção é associada ao processo produtivo fragmentado. “Somos ricos em produtos naturais e nossos processos continuam não permitindo compartilhar a produção com outras regiões.”

O estudo realizado pela Cepal e Ipea mostra que existem três possibilidades de os países participarem das cadeias globais. Para tanto, foram divididos em categorias A, B e C. A primeira é a mais simples de todas e engloba aqueles países que têm condição de fornecer matéria-prima. Já os países B são os que concentram a montagem dos produtos finais, como ocorre na China.

A categoria C seria a mais desejada na visão dos especialistas, pois é formada pelos países que controlam a governança da cadeia produtiva, com o desenho de ideias e os maiores ganhos, a exemplo do Vale do Silício.

Para Baumann, o Brasil reúne condições para ser um país B na América do Sul, pois tem complementaridade produtiva, que daria direção ao processo de integração da região.
“É fundamental que na agenda de política econômica macro [de governo] seja incluída a inserção internacional de forma mais eficiente e sustentável. É para isso que a matriz serve, para dar a direção a ser seguida”, pontua Baumann.

Obstáculos
Entretanto, para atingir esse grau, o especialista considera fundamental eliminar os obstáculos internos que impedem a competitividade, como excesso de burocracia, problemas de infraestrutura e logística, custos e questões tributárias. “A questão é o País se tornar mais barato para que os outros importem de você. Como está hoje, temos um custo muito alto.”

Também no campo externo, muitos desafios terão de ser driblados, como a dificuldade de obter dados e informações, a questão da setorização das importações e exportações de bens e serviços, que não é homogênea entre os países, além das diferenças em infraestrutura, custos e tributárias de cada país.

Na visão de Baumann, as cadeias de calor vieram para ficar. “Não há formulário de inscrição para participar. 
A pré-condição é que as empresas que transacionam o seu produto identifiquem as oportunidades para produção industrial com ganhos”, resume.

Para o presidente do Coscex/Fiesp, embaixador Rubens Barbosa, é preciso saber enfrentar as novas questões que surgem. “A inserção na região é um estudo novo. Precisamos entender a integração a partir das cadeias globais. Há precariedade de dados e questões metodológicas para alinhar, mas está dado o primeiro passo para uma área inexplorada pelos formuladores da política brasileira.”

(Edição e reportagem: Andréa Campos)

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