A reforma política e econômica pela qual passa o Irã, favorecida pela reativação de fundos de investimentos internacionais, torna o país mais atraente para negócios. Com o fim do isolamento, a demanda por produtos e serviços deve crescer, e a população – de quase 80 milhões de habitantes – vai buscar novos níveis de consumo. A previsão foi lançada recentemente pelo mestre em Estudos Regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Irã, professor de Relações Internacionais e consultor estratégico de negócios entre Brasil e Oriente Médio, Jorge Mortean.

Segundo o especialista, os ânimos internacionais foram acalmados pelo acordo com os Estados Unidos, no qual o Irã se comprometeu a, sistematicamente, congelar seu programa de desenvolvimento nuclear, em troca de mais fluidez econômica.

O fim das sanções econômicas internacionais, aplicadas ao Irã pelos EUA e União Europeia, abre caminho para que o país possa se integrar à economia mundial.

O Irã possui potencial exportador para petróleo e derivados, produtos petroquímicos, tapetes e artesanatos, caviar, frutas secas (pistache, passas e tâmaras), couro e gêneros alimentícios.

Para quem pretende vender ao país persa, as oportunidades estão nos segmentos de máquinas, metais industriais, medicamentos, derivados químicos, carne, frango, grãos, açúcar, extrato e polpas de frutas.

Mortean conta que o Irã necessita renovar tecnologicamente seu parque industrial e melhorar a dinâmica logística e comercial, o que constitui uma grande oportunidade de investimentos para o Brasil.

De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em 2010, o Irã tornou-se o segundo maior comprador de carne do Brasil, atrás apenas da Rússia. Em 2012, o comércio atingiu US$ 2,18 bilhões, porém as sanções internacionais aplicadas contra o país, por seu programa nuclear, prejudicaram o comércio bilateral, que se reduziu a US$ 1,44 bilhão em 2014. Com o levantamento das sanções, é esperado que o comércio bilateral retome o caminho do crescimento.

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Jorge Mortean – Geógrafo formado pela USP, mestre em Estudos Regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Irã, professor de Relações Internacionais da FAAP e consultor Estratégico de Negócios entre Brasil e Oriente Médio.

Sem Fronteiras – Como é formada a pauta de comércio entre Brasil e Irã?

Jorge Mortean – Basicamente, 90% do fluxo comercial é superavitário a nós, brasileiros. Exportamos, principalmente, carne bovina, carne de frango, açúcar, soja, café e peças automotivas. De lá, importamos polietileno, frutas secas (tâmaras, damascos), pistache e tapetes. Tivemos o ápice de US$ 2,5 bilhões em 2010, mas temos mantido uma média bem aquecida. O Irã foi, por anos, o único país do Oriente Médio a nos dar superávit na balança comercial.

Poderia relatar os efeitos das sanções econômicas e políticas?

As sanções, que vinham sendo aplicadas desde meados dos anos 2000, paralisaram a economia iraniana, gerando inflação e deflação incontroláveis, como medida punitiva ao conservadorismo do governo anterior, bem como à sua retórica arredia em sua política externa. O Irã não crescia economicamente já fazia quase sete anos. No entanto, as últimas eleições gerais no país levaram ao governo uma equipe reformista, que visa a restaurar e melhorar as suas relações com o Ocidente, resgatando a confiança no cenário internacional, especialmente com o acordo alcançado com os EUA. Esse acordo acalma os ânimos internacionais, visto que o Irã se comprometeu a sistematicamente congelar seu programa de desenvolvimento nuclear, em troca de mais fluidez econômica, o que tem sido um êxito imenso.

Quais os principais fatores que podem levar à evolução do comércio entre os dois países?

Após quase 37 anos de isolamento político, o Irã de hoje é muito diferente daquele que promoveu a revolução islâmica de 1979: uma imensa população jovem (dois terços dos 78 milhões de iranianos têm menos de 35 anos), muito bem educada e consciente das tendências culturais e econômicas do Ocidente, ávidas por consumi-las – tanto que o país detém o recorde do maior fluxo de “fuga de cérebros” no mundo, já que estava, até então, estancado tecnologicamente. Aproximadamente 15 mil jovens deixam o país todos os anos, entretanto esse cenário poderá se reverter, agora com o Irã se tornando o país mais atrativo do Oriente Médio – o país necessita de mais competitividade mercadológica.

Quais as oportunidades para os exportadores brasileiros no Irã? Que produtos podem ter maior facilidade para entrar no mercado?

O fim das sanções econômicas internacionais, aplicadas ao Irã, injeta aproximadamente US$ 100 bilhões diretamente na economia iraniana. Esse valor não só faz do Irã um país com média per capita de paridade de compra maior que a sul-americana, como também se refere a ativos congelados em fundos internacionais mundo afora, o que agora dará um enorme fôlego para diminuir a dependência do país teocrático à exportação de gás natural e petróleo – exportação que se torna cada vez mais desvantajosa, dado o baixo preço internacional dessas commodities. Serviços, comércio e indústria ganharão espaço nos próximos anos. O Brasil poderá ter acesso a um enorme mercado, composto por 78 milhões de consumidores, com uma renda média razoavelmente alta. O Irã tem potencial de compra de uma gama infinita do made in Brazil: desde abertura de franchising nossas, especialmente nos setores de vestuário, calçados e alimentação, bem como o estabelecimento de joint ventures industriais, acordos de cooperação técnica em áreas como nanotecnologia, até exportação de aviões da Embraer. Temos outro fator cultural a nosso favor: o Brasil tem uma excelente imagem entre os iranianos. Nossa relação diplomática é centenária e historicamente pautada no respeito e entendimento mútuos, fazendo com que possamos lucrar muito com essa nossa já frutífera relação com Teerã.

Em relação à normativa de importação do Irã, a que exigências/regras os exportadores brasileiros precisam estar atentos?

A única exigência que se faz, com relação à exportação de carnes, é a exigência de certificado halal, em que os abates seguem preceitos islâmicos, lembrando que a carne suína é proibida no país, por razões religiosas.

É comum a imposição de medidas restritivas ao comércio, pelo Irã, a exemplo do que ocorre com alguns países, como a Argentina?

Ao longo do nosso histórico comercial com a nação persa, não houve imposição, então essa hipótese é longínqua.  

Qual a expectativa em relação à primeira Missão Empresarial com participação de delegação brasileira?

A Mercator Business Intelligentsia, junto com a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Irã, está prestes a concluir a formação desta primeira delegação à maior feira de agribusiness do Irã. Estamos satisfeitos com o feedback dos interessados, lembrando que esse setor é o mais importante dentro da nossa balança comercial. A última edição da Iran AgroFood, em 2015, reuniu mais de 350 expositores e 30 mil visitantes nos 5 dias de exposição, totalizando quase US$ 100 milhões em negócios que ali se iniciaram.

Poderia comentar sobre as principais feiras do país e como elas podem constituir oportunidades para exportadores e importadores do Brasil?

O Irã possui exposições internacionais de altíssimo nível, que nada devem às nossas ou às europeias. A maioria delas recebe assessoria direta da Messe Frankfurt em suas organizações, o que as credibiliza ainda mais. Setores como energia, infraestrutura, transportes, nanotecnologia, alimentos e mineração estão entre os que têm mais destaque atualmente naquele país. A participação em delegações empresariais ou envio de representantes a essas feiras é essencial para iniciar um grande negócio com a nação persa. O empresário iraniano, em sua maioria, ainda preserva um modo peculiarmente milenar em suas negociações, o que denota um alto grau de respeito e confiabilidade, logo uma assessoria culturalmente voltada a negociações locais é fundamental.

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