Vera Thorstensen e Lucas Ferraz, coordenadores do estudo Amcham/FGV
Vera Thorstensen e Lucas Ferraz, coordenadores do estudo Amcham/FGV

“O Brasil só vai sair da crise se conseguir exportar e exportar muito.” A afirmação, da professora e pesquisadora da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e coordenadora do Centro do Comércio Global e Investimento da mesma instituição, Vera Thorstensen, é consenso entre os especialistas que estudam a participação do Brasil na economia global e tem amparo nos resultados de um estudo divulgado recentemente sobre os impactos para o Brasil de acordos comerciais com Estados Unidos e União Europeia, encomendado pela Amcham Brasil ao Centro de Estudos da FGV.

“Todos sabemos que o Brasil enfrenta um de seus maiores desafios. É exatamente nesse momento que devemos repensar o que queremos para o País. A inserção do Brasil no mundo é um dos temas mais importantes, mas sumiu dos jornais”, pontua Vera.

Para o presidente do Conselho de Administração da Amcham Brasil, Hélio Magalhães, o Brasil precisa vencer o isolamento em que se encontra, com participação de apenas 1,2% do comércio mundial. Segundo ele, a busca da maior inserção na economia global é um dos focos de trabalho da entidade e motivou o pedido do estudo à FGV.

Vera explica que o Brasil seguiu nos últimos anos o modelo esgotado da Organização Mundial do Comércio, fora da nova geração de acordos, que são alinhados à competitividade global e às exigências dos consumidores. Ela ressalta que Europa e Estados Unidos saíram do “jogo” da OMC e apostam em mega-acordos, com negociações centradas na Parceria Transpacífico (TPP) e na Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos (TTIP), que englobam metade do comércio mundial e saem de uma postura de redução de tarifas para uma sofisticação maior do comércio, em que ganha relevância todos os tipos de barreiras não tarifárias e convergência de regras.

A especialista é crítica à opção de negociação Sul-Sul adotada pelo governo brasileiro por ideologias políticas, que restringiu as alternativas de negócios a 8% do comércio internacional, deixando de lado os maiores mercados consumidores.

De acordo com o estudo Amcham-FGV, um cenário envolvendo o acordo de livre comércio com Europa e Estados Unidos representaria um ganho de US$ 1,07 trilhão de dólares para a corrente de comércio do Brasil no período 2016-2030.

O estudo simulou seis cenários econômicos a partir de redução de tarifas e barreiras não tarifárias (NTBs) para mostrar os impactos dos acordos com EUA, UE e a participação ou não do Brasil no TTIP. Assim, um acordo entre Brasil e EUA, simulado apenas com redução de tarifas, levaria a um aumento no total das exportações de 6,52%, importações (4,73%) e no PIB real de 0,44%. Caso as condições fossem 100% de eliminação tarifária e redução de 40% das NTBs o incremento seria de 6,94% nas exportações, 7,46% nas importações e 1,29% no PIB real.

Com a Europa os números são ainda mais favoráveis. Pela redução de tarifas, as exportações cresceriam 6,77%, as importações, 9,02% e o PIB real, 1,31%. Para um cenário com redução de tarifas e NTBs, o aumento no total das exportações seria de 12,33%, das importações de 16,93% e no PIB real, 2,80%.

A ameaça estaria no cenário com negociação da TTIP entre EUA e UE com liberalização tarifária e redução de barreiras, mas sem a participação do Brasil. As exportações estariam sujeitas à queda de 0,57%, importações (-1,46%) e PIB (-0,34%).

Com o Brasil no TTIP, o aumento no total das exportações seria de 19,62%, nas importações de 25,48% e no PIB real, 4,26%.

Para Lucas Ferraz, coautor da pesquisa e coordenador do Núcleo de Modelagem do Centro do Comércio Global e Investimento da FGV, Europa, EUA e até mesmo China são países que negociam fazendo essa análise de impacto e é exatamente isso que o Brasil precisa começar a discutir.

O especialista explica que o estudo constata que o Brasil está muito aquém do seu potencial de inserção no comércio internacional e isso se deve à fraca política comercial ao longo das últimas décadas.

“O Brasil priorizou acordos que envolvem pouca negociação de tarifas, voltados para países em desenvolvimento, no comércio Sul-Sul. Com esse estudo a gente mostra a importância do comércio Norte-Sul, que pode trazer maiores ganhos para a economia brasileira”, disse Ferraz ao explicar que o estudo mapeou a economia brasileira para mostrar seu isolamento, inclusive das cadeias globais, e também a importância não só da negociação tarifária simples, tradicional, mas da negociação de barreiras não tarifárias (barreiras técnicas, sanitárias e de facilitação de comércio) que hoje são muito mais relevantes.

Ferraz analisa que EUA e Europa são parceiros comerciais naturais do Brasil em termos de volume comercializado, e são também os principais parceiros no comércio de bens intermediários, diretamente relacionados às chamadas cadeias globais de valor. Assim, a execução de acordos de livre comércio com esse grupo de países facilitaria também a inserção do Brasil no comércio de bens intermediários.

O ex-secretário da Secex/MDIC e presidente do Comitê de Comércio Exterior da Amcham, Welber Barral, avalia que faltam narrativas sobre a estratégia do País para inserção internacional. “Muitas ações tratam questões práticas, burocráticas, mas pouco se discute sobre impactos do comércio exterior no desenvolvimento do País. Nosso histórico de economia fechada restringe as ações.”

O fato de o Brasil ser um dos países menos integrados às cadeias globais de valor também é ponto de discussão entre os especialistas. Para Ferraz, enquanto no mundo se observa o aumento da participação dos insumos importados para produtos denominados “made in the world” (fabricado no mundo), no Brasil prevalece o “made in Brazil”. Com isso, a economia brasileira sofre impactos negativos decorrentes do novo padrão de comércio imposto pela crescente fragmentação da produção mundial.

O relatório gerado pelo estudo da FGV defende que o Brasil “não só tem de aprofundar sua integração no Mercosul e expandir suas preferências para a América Latina, mas também dar prioridade para a negociação do acordo preferencial com países mais desenvolvidos, como UE e EUA, porque eles ainda são as fontes mais importantes de inovação tecnológica, fato essencial para integrar o Brasil nas cadeias globais”.

(Edição: Andréa Campos)

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